Arquitetura

A arquitetura democrática de Aravena: Calama e Constitución


Foto: Pablo Sanhueza

Foto: Pablo Sanhueza

Ganhador do Prêmio Pritzker de 2016, Alejandro Aravena costuma dizer que sua filosofia de trabalho se baseia em trazer a comunidade para o projeto. Sua arquitetura ganha forma com a participação direta da população, cujos sonhos e críticas o arquiteto chileno usa como matéria-prima na criação uma obra funcional e despretensiosa. Exemplos disso são os planos para as cidades de Constitución, devastada por um tsunami, em 2010, e em Calama, cidade do Atacama que sofre com a atividade mineradora e o clima inóspito.

Em Calama, um parque verde perimetral a oeste dissipará o vento e a areia vindos do Atacama

Em Calama, um parque verde perimetral a oeste dissipará o vento e a areia vindos do Atacama

Situada em meio ao deserto, 3.000m acima do mar, Calama é uma cidade de 150 mil habitantes cuja economia gira em torno da extração do cobre. Maltratada por condições climáticas extremas como variações de temperatura de até 40ºC, com a maior radiação U.V. do planeta, seca, ventos fortes carregados de areia, a população se mostrou hostil às ideias do plano urbano sustentável mostrado por Aravena. Uma das primeiras atitudes do arquiteto foi projetar e construir um edifício para debater as propostas com a comunidade.

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Em vídeo sobre o projeto, na home do Elemental, é possível ver o arquiteto debatendo com uma comunidade cética e agressiva, frustrada com planos anteriores que não se concretizaram. Aravena promoveu workshops e seminários para expor e discutir ideias. Também propôs um referendo para que a população pudesse priorizar propostas como a de um bulevar central com serviços e espaços públicos.

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Um dos conceitos rejeitados pela comunidade, por causa da linguagem industrial, foi o da criação de barreiras (estruturas verticalizadas) para dissipar os ventos fortes com areia vindos do deserto. Aravena voltou atrás e, depois de estudar os terraços andinos agrícolas, optou por criar um filtro verde para barrar o vento, ou seja, um parque linear periférico com 6km de extensão a oeste da cidade, região onde os habitantes são mais vulneráveis e carentes. Dessa vez, a solução foi bem aceita pela população.

Os terraços andinos de irrigação serviram de inspiração para a criação de estruturas que ajudassem a dissipar o vento

Os terraços andinos de irrigação serviram de inspiração para a criação de estruturas que ajudassem a dissipar o vento

A ideia de usar árvores para amenizar problemas climáticos também fui usada em Constitución (46 mil habitantes), que sofre com o problema oposto de Calama, ou seja, o excesso de água. Feito em apenas 100 dias após o tsunami que destruiu a cidade, o projeto PRES (Plan de Reconstrucción Sustentable) foi apoiado pelo governo e pela empresa florestal Arauco, que contribuiu financeiramente para viabilizar o plano, cuja principal intervenção é um parque com piscinas para retenção das águas pluviais, evitando a inundação causada pelo rio.

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Em Calama, assim como em Constitución, a resposta dada pelo projeto foi geográfica, através de um parque capaz de dissipar a força das ondas através do atrito. Além do parque, o projeto inclui a reconstrução do centro cívico, biblioteca, teatro, estádio, passeios, praças e o Villa Verde, conjunto habitacional para 482 famílias composto por casas geminadas erguidas com o sistema construtivo wood frame, que resiste bem aos abalos sísmicos a que a região está sujeita.

Criado para Constitución, Villa Verde é um conjunto habitacional projetado em wood frame

Criado para Constitución, Villa Verde é um conjunto habitacional projetado em wood frame

Em abril de 2016, Aravena disponibilizou quatro de seus projetos habitacionais (dentre eles o Villa Verde) para os governos de todo mundo. A iniciativa, segundo ele, é uma maneira do Elemental contribuir para que o mundo enfrente desafios como o aumento de refugiados e a “rápida e massiva urbanização”. Além do Villa Verde, é possível fazer download de projetos como o Quinta Monrroy, Lo Barnechea e o complexo de Monterrey.

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O plano do Elemental prevê edifícios e espaços públicos exigidos pela população nos debates

O parque, além de atenuar as inundações, aumenta a oferta de espaço público em Constitución

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