Entrevista

Selos falham ao avaliar fachadas junto com outros sistemas?


Marcelo_Nudel

“Fachadas em Xeque” foi o título de uma entrevista feita com o arquiteto Marcelo Nudel para a revista Techne sobre sistemas de certificação de edificações. Especialista em conforto ambiental, fachadas de alto desempenho e eficiência energética, Nudel acredita que selos como o Leed falham ao avaliar as fachadas no mesmo pacote que os sistemas prediais, pois isso permite que uma fachada ruim seja compensada com os pontos obtidos pelos sistemas como os de ar-condicionado e de iluminação.

“Muitos projetos de edificações com fachadas integralmente de vidro passam na certificação Leed e Aqua simplesmente porque a ferramenta te permite compensar uma fachada de desempenho médio ou ruim com um sistema de ar-condicionado e iluminação”, diz Nudel, atualmente sócio-diretor da Ca2 Consultores Ambientais Associados empresa de consultoria e gestão de projetos sustentáveis idealizada em 2006 por ele juntamente com o arquiteto Ricardo Vasconcelos.

Leia trechos da entrevista concedida por Nudel à Techne:

Como está o mercado brasileiro em relação às tecnologias exigidas pelo Leed?
Temos a maioria dos produtos exigidos pelo Leed, mas alguns deles têm um custo elevado… O custo da geração da energia fotovoltaica no Brasil, por exemplo, ainda pode se tornar proibitivo, principalmente para determinadas tipologias, como a dos edifícios residenciais. O grande desafio do mercado nacional é encontrar mecanismos para viabilizar este tipo de tecnologia em uma escala menor, ou seja, a residencial. O GBC (Green Building Council) do Brasil tem a intenção de explorar melhor a aplicação destes sistemas de certificação nos edifícios residenciais.

A “cultura da alvenaria” que há no Brasil é um desafio para tornar a construção mais sustentável?
A padronização de materiais e a industrialização de componentes certamente ajudam na redução de desperdício e resíduos de obra o que, por si só, representa um ganho enorme. Mas isso requer mão-de-obra especializada e é aí que está o desafio: a qualificação da mão-de-obra no Brasil.

Quais as diferenças entre o Leed e o Aqua para o profissional que especifica, no caso o arquiteto ou o engenheiro?
O Aqua é uma adaptação do francês HQE (Haute Qualité Environmentale) ao Brasil. É uma tentativa de tornar a especificação muito mais palpável ao profissional brasileiro, pois considera as nossas realidades de mercado e faz referência à norma de desempenho brasileira. Já o Leed deixa a desejar nesta área por usar muitas referências norte-americanas.

Que referências? Poderia dar um exemplo?
Por exemplo, a madeira certificada. O Leed exige a especificação da madeira certificada pelo FSC (Forest Stewardship Council), que não é abundante e tão disponível no mercado brasileiro. Existe uma tendência de que certas referências internacionais desestimulem o mercado por não serem aplicáveis.

Em que estágio está o Brasil na cultura da construção sustentável comparado a países como Alemanha, Inglaterra e os Estados Unidos?
Estes países estão à frente do Brasil no que se refere à legislação para controle de impactos ambientais em obras e concepção de projeto. O código de edificações britânico, por exemplo, tem requisitos rigorosos para a eficiência energética de projetos que, se não forem atendidos, não há alvará para tocar uma obra. Nestes países, independente dos sistemas de certificação, o nível de referência dos projetos e obras é muito alto. Falta no Brasil uma legislação mais rígida neste sentido, apesar das tentativas voluntarias como o Procel, que pode se tornar compulsório algum dia.

O Procel é o único programa nacional. O Aqua é originalmente francês e o Leed, americano. Em que eles diferem?
O Procel é voltado apenas para a eficiência energética, enquanto o Leed e o Aqua englobam também resíduos da obra, água e materiais. Como o Procel é basicamente um selo de eficiência energética, não toca em questões como a qualidade do ambiente interno, por exemplo. E hoje há um sistema de certificação para residência criado pelo GBC do Brasil que é adaptável à nossa realidade, o que é muito positivo. A tendência para os próximos anos é que os sistemas de certificação, incluindo o Leed, se adaptem ao Brasil.

É possível que um edifício tenha fachadas totalmente envidraçadas e ainda assim bom desempenho térmico?
É possível, mas não é desejável, por causa das diversas variáveis que devem ser otimizadas pelo projeto de fachadas. Como vidro terá de ser de altíssimo desempenho, o custo, que é uma das variáveis, ficará em desbalanço. A segunda variável em desbalanço é a iluminação natural pois, como você vai precisar de muito controle solar, a trasmitância luminosa será reduzida. Outro problema gerado pelo emprego do vidro piso a teto nas fachadas é o ofuscamento. Pode causar um excesso de luz perimetral e iluminação pobre mais para o centro da planta. O que estou querendo dizer é o seguinte: muitos projetos de edificações com fachadas integralmente de vidro passam na certificação Leed e Aqua simplesmente porque a ferramenta te permite compensar uma fachada de desempenho médio ou ruim com um sistema de ar-condicionado e iluminação mais eficientes. Eu não recomendo, em nenhum dos meus projetos, a utilização excessiva e indiscriminada do vidro em todas as fachadas.

 Os sistemas de certificação deveriam valorizar mais os projetos de fachadas ou de arquitetura?Sistemas como o Leed falham quando olham as fachadas e outros sistemas de forma conjunta. Uma fachada com desempenho reduzido pode ser compensada com sistemas de ar-condicionado e luminotecnia mais eficientes, pois o que interessa é o resultado final do consumo energético. A consequência disso é entregar para a cidade uma envoltória com desempenho aquém do desejado. Mas é justamente a envoltória que será o legado das gerações futuras, pois é ela que permanecerá por mais de 50 ou 80 anos… Coloca-se todo o foco nos elementos internos, que serão trocados ao longo do tempo. A luminotecnia e o ar-condicionado podem mudar com o inquilino, que pode optar por sistemas que não sigam as recomendações de eficiência energética estipulados originalmente pelo projeto.

O que deveria ser feito?
Dar um foco mais rigoroso para o projeto de envoltória e não olhar a fachada e os outros sistemas em um mesmo pacote. O sistema de certificação não tem conseguido separar estas duas coisas. Basicamente, não existe uma fachada que passe ou não passe pelo sistema Leed, já que você pode compensar uma envoltória deficiente com outros sistemas. Deveria haver uma separação entre fachadas e sistemas para colocar um pouco mais de pressão nos projetistas, para dar mais atenção ao projeto da fachada. O arquiteto ainda está numa posição um pouco passiva neste processo.

Que características um empreendimento como este precisa ter para perdurar com qualidade?
A primeira coisa é a redução de consumo de água e de energia. Não adianta você adotar uma tecnologia de geração de energia se não focar primeiro na redução de consumo.  Fizemos reformulações preliminares de energia para determinar qual era a volumetria, formato da planta baixa e orientação ideal de cada torre. Trabalhamos junto com o arquiteto na concepção da arquitetura para, posteriormente, focarmos no sistema de fachadas. Só depois disso é que começamos a olhar para as tecnologias como o sistema de ar-condicionado.

 

 

 

 

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